A Graça do Mar

Engraçado como as vezes só queremos ficar um tempo admirando o mar. Talvez seja uma metáfora sobre o que Nietzsche disse sobre o abismo, só que de maneira positiva, já que suas ondas espumosas entoam um recital efervescente, e, ao contrário do esperado, parecem entediar nossos monstros e logo eles estão calmos em nós.
Há muito ela não sentia essa necessidade. Vivera o suficiente para tê-la diversas vezes, e já aprendido a diferenciar o desejo da precisão. Entregara algumas vezes sua boca, poucas o peito e menos ainda o colo, não por pudor, mas pela necessidade de sentir que, se nada desse certo, seria necessário visitar a sua metáfora, parece meio contraditório, talvez até seja, mas nunca foi incômodo e nem orgulho, ela apenas foi. 
Como dito, já fazia tempo que não precisava do seu mar… 

Ela conhecia pessoas e estas logo seguiam por suas próprias vielas. Era indiferente. Sabia que em nada acrescentariam, sabia que suas idas nada despertariam, nem desejo muito menos necessidade. Sem peito e sem colo, apenas boca. Mas houve um par de lábios que conquistou tudo, todas a partes do que era ela, desfez até sua tão preciosa conotação. Nada de condições. 

Juntos foram à praia. Entraram na água: jogaram, pularam, cuspiram, afundaram, nadaram e, depois de onde as ondas rebentavam, eles descansaram. Agora não era mais sua metáfora, nem mais era algo exclusivamente seu, era dos dois. O mar não mais aquietava os demônios, ele sim encantava os anjos. Sexo, lábios, colo, beijo, peito e coração. Tudo em um só, sem ordem, sem pudor, mas ainda belo e respeitável. Encontraram a harmonia entre desejo e necessidade. 

Ele a amou verdadeiramente, ainda que amasse mais sua vida acadêmica. Uma bolsa fora do país o fez partir sem muito tempo de preparo para ela, talvez nunca haveria tempo bastante. 

Sua vida antiga caiu em cima toda de uma vez, era pesado demais. Não tinha mais lábios, nem sexo, menos ainda coração. Era tudo muito pesado. O chão não lhe era mais sustentável, tudo que era ela havia perdido força. Ela era pesada demais. Precisava diminuir o que carregava, era muito. 
Já fazia tempo que não precisava do mar… 
Precisou. 


Ganhador do Concurso Cultural
Com seu texto A Graça do Mar, foi ganhador do primeiro Concurso Cultural promovido pelo Multiverso.

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